Homenagem ao dia do Jardineiro

sábado, dezembro 14, 2013




O Que se encontra no início? O Jardim ou o Jardineiro? Havendo um Jardineiro, mais cedo ou mais tarde, um Jardim aparecerá. Mas havendo um Jardim sem Jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um Jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de Jardins... (Rubem Alves)

Dia 15 de Dezembro comemora-se o Dia do Jardineiro. E este post é para homenagear todos os Jardineiros que abraçam essa profissão com dedicação. Escolhi para isso o texto do Pe. Alfredo Gonçalves, que traduz com muita sabedoria toda a delicadeza além de toda grandeza de ser "Jardineiro". E também porque sempre comparei (metaforicamente) o trabalho de semear, o cuidar e o zelar de um jardim com ações que norteiam nossas vidas. O Jardineiro aduba a terra, semeia, poda, tutora, conduz, limpa, cuida do seu jardim e em seu cotidiano, aprende a lidar com fatos que não pode controlar como, fazer chover, fazer brotar, frutificar, florir, parar de chover, de ventar, de gear, eliminar as ervas daninhas que teimam em aparecer... Aprende a esperar o tempo que cada semente precisa para brotar, reconhece as diferenças que existem em cada planta, aprende a aceitar a natureza da Natureza e das coisas como elas são. E assim, o "Jardineiro" à medida que aprende a zelar por seu jardim, ele se realiza em "ser-Jardineiro". E nesse sentido, ao fazer o jardim, está sempre disposto  a compreender as necessidades do jardim, não só constrói o jardim, mas constrói a si mesmo, pois entende a dinâmica do jardim: "ele é Jardineiro".

O Jardineiro

Sempre tive uma vontade oculta de ser jardineiro: mexer com a terra, afundar os pés e as mãos em suas entranhas, sentir-lhe o calor e o frio, inebriar-me de seus cheiros, seguir as estações do ano, contemplar o sol e a chuva, lançar a semente e esperar a lenta maturação da vida... Mas especialmente cultivar flores. Quem sabe, um dia, ser uma entre elas!


Mas a profissão de jardineiro tem suas armadilhas. Sem dúvida, é gratificante ver as plantas se erguerem do solo, produzir botões e estes se abrirem em pétalas de diferentes cores e tonalidades. Em pouco tempo, porém, elas murcham, secam, desaparecem. Com a mesma voluptuosidade com que buscam o céu azul, a luz e o ar livre, também se curvam encarquilhadas sobre o chão, morrem e caem no esquecimento. Menos mal que deixam na terra suas sementes e que estas, em potencial, contêm novas flores. Cedo ou tarde, haverão de romper a superfície da terra e se reerguer para a vida.


Outra armadilha é que, após preparar o solo, lançar a semente, e zelar diariamente pela sua gestação, o jardineiro pode surpreender-se com alguma flor que nasce fora do jardim cultivado. Tanto carinho e cuidado, para ver o broto ressurgir em meio ao mato e espinhos, ou entre as pedras do caminho. Flores são seres rebeldes, crescem não raro onde menos se espera, longe de nosso alcance. Às vezes são mais vivas e vigorosas onde a terra é mais agreste.


Ninguém como o jardineiro se dá conta de como a flor é bela e frágil. Ou melhor, bela porque frágil. Oferece seu brilho intenso e colorido, mas sempre provisório. Tão longe quanto fugaz, talvez porque possui uma estranha consciência orgânica de que sua passagem pela vida é breve. Logo terá de desaparecer! O mesmo ocorre com o perfume.A flor exala-o com tanta intensidade que chega a embriagar o viajante que passa. Mas fenece junto com ela. Também neste caso é verdade que, apesar de resistir mal à tormenta, a beleza e o perfume da flor jamais se apagam da memória de quem os experimentou.


Mas o cultivador de flores conhece outros segredos. Sabe que cada uma delas é única, imcomparável e insubstituível. Inútil perguntar qual a mais bonita, a mais sedutora, a mais cheirosa. Todas o são, embora distintas. Ou melhor, todas são belas justamente porque distintas! É a diversidade de formas e aromas, cores e tons que torna encantado o jardim.


O senhor do jardim sabe, ainda, que cultivar flores não é tomar posse delas. Se tentar fazê-lo, mata-as, perdendo-as para sempre. De resto, essa relação com as flores reproduz-se na relação com outros seres vivos, plantas ou animais, como também na relação entre as pessoas. Cultivar implica não em dominar e possuir, mas deixá-las livres. Livres para que outros possam desfrutar de seu conhecimento e riqueza. A posse é a negação do amor.


O jardineiro é diferente do colecionador. De fato, o cultivador de carros de luxo, de pérolas preciosas, de contas bancárias, de objetos exóticos, como também o cultivador de mágoas ou ressentimentos, de ódio ou vingança, torna-se escravo daquilo que cultiva. Constrói a própria prisão. "Onde está o teu tesouro, aí está teu coração", diz o sábio Jesus. Ao contrário do colecionador, o jardineiro aprende que somente há de colher as flores que cultiva com o toque mágico de suas mãos, rudes e ternas a um só tempo. Mas ele as colhe com o olhar, com o deslumbramento da alma. Prendê-las é condená-las à morte.


E assim, livre e bela, a flor pode entregar-se gratuitamente a todos que visitam o jardim. Seu brilho fala de Deus quando guarda as gotas do orvalho noturno ou abre suas pétalas à luz matutina, quando dança ao ritmo da brisa suave ou oferece seu néctar ao beija-flor, o qual, a seu turno, transportará o pólen para fecundar outras flores, alimentando assim o ciclo interminável da vida.


Unida ao sorriso da criança, ao murmúrio ou ao rugido da água, ao canto do pássaro, à luz longíqua da estrela, ao sol que chega ou que parte, ao olhar de quem ama ou à lágrima de quem ainda é capaz de chorar, aos corações sedentos de justiça ou às mãos que combatem pelos direitos humanos a flor integra a grande orquestra da criação. Instrumentos distintos, que tocam notas diferentes, mas exprimem a beleza de uma sinfonia comum.


Cultivar flores é cultivar relações novas, livres autênticas, transparentes. Relação consigo mesmo, com o outro, com a história de um povo, com o meio ambiente, com o transcendente. essas dimensões, embora distintas, não constituem instâncias cerradas uma à outra. Ao contrário, todas se entrelaçam, interpelam e se integram, se enriquecem e se complementam. O cultivo de uma repercute no crescimento das demais, o descuido de uma significa o esvaziamento de todo o ser.


Como ponto final, vale sublinhar, uma vez mais, a lição da flor: porque é bela, fugaz e frágil, ela brilha e se apaga, revela-se e se esconde, aparece e desaparece, como o amado que se oculta para estimular a busca e nutrir um amor fiel e persistente. (Pe. Alfredo J. Gonçalves)


Parabéns à todos Jardineiros!

Abraços desejosos de que assim como Jardineiros, nós possamos sempre descobrir o ofício de plantar, cuidar e zelar amorosamente da nossa felicidade.

Imagens: web/google
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"Eu agradeço pelas inúmeras vezes que você me enxergou melhor do que eu sou... Pela capacidade de me olhar mais devagar... já que muita gente já me olhou depressa demais. Olhe devagar cada coisa. Aceita o desafio de ver o que a multidão não viu. Entre cascalhos disformes, estranhos diamantes sobrevivem solitários. É bom ter amigos. Eles são pontes que nos fazem chegar aos lugares mais distantes de nós mesmos. A beleza anda de braços dados com a simplicidade. Basta observar a lógica silenciosa que prevalece nos jardins."
(Pe. Fabio de Melo)